Minha Biografia
23 Junho 2007Escapei da morte duas vezes mesmo antes de nascer, após duas tentativas de aborto frustradas. Com dois dias de vida quase fui deixada para adoção. Me safei por pouco.
Desde o começo tive duas famílias. Minha mãe e meu pai, quase sempre ausente, pelas várias prisões e meus tios e primos, que me acolheram como se eu fosse gerada do mesmo sêmen e saída da mesma barriga.
Minha primeira infância intercalou momentos felizes no seio familiar seguro e dias de insegurança, vivendo entre aqui e acolá, em casa de amigos, conhecidos e colegas de quebrada dos meus pais.
Aos quatro anos sofri torturas físicas, psicológicas e abusos sexuais por parte da família do meu pai. Ainda não sei como sobrevivi a isso. Foi nessa época que me apaixonei pela primeira vez. Acariciava e beijava o rosto do Sidney Magal estampado numa revista de fofocas.
Aos cinco anos me lembro de ter cortado papel manteiga e grampeado papelotes de cocaína pela primeira vez. Apesar da vida bastante agitada da minha família, era divertido morar em vários lugares diferentes, ainda que fosse uma estratégia de fuga para escapar da polícia.
Aos seis anos, em companhia dos meus pais, já tinha conhecido todos os motéis do Rio de Janeiro. Lembro-me de acordar com o barulho dos dois trepando ao meu lado após cheirarem e beberem muito.
Ainda aos seis, fizemos uma viagem de carro para a região serrana, eu, meus primos e tios. No toca fitas ouvíamos Balão Mágico e brincávamos de alcançar as poças de água formadas, por nossa ilusão de ótica, na pista da estrada Rio-Petrópolis.
Aos sete anos vivi uma das aventuras mais excitantes da minha vida: Passar quinze dias dentro de um presídio de segurança máxima, a extinta Ilha Grande, sem ser vista por nenhum dos guardas.
Lembro da minha vida com as crianças da Favela do Rebu, em Senador Camará. Da gente jogando fliperama, brincando no parque de diversões. Os auto falantes tocando Menudo e Kid Abelha e eu me apaixonando pela segunda vez pelo menino mais bonito de todos, dentinho, o filho do chefe do tráfico. O Tio Silvio morreu naquele ano numa emboscada da polícia.
Aos oito anos aconteceu o fato que iria mudar de vez a minha vida: Conhecer meu pai biológico. Pela primeira vez vi um homem chorar por amor. Meu pai adotivo, bandido, traficante, muitas vezes mau, foi capaz de me dar mais amor que o homem de terno e bom emprego com quem eu não tive mais de três contatos visuais em 25 anos.
Nessa época eu vi um adolescente ser torturado pelo roubo de um toca fitas e minha mãe matar meu coelho de estimação para preparar o almoço. Entrei em choque! Talvez por isso eu nunca tenha conseguido ver uma cena de tortura no cinema.
Aos nove viajei de avião pela primeira vez para visitar familiares que moram no nordeste. Dormi em redes, tomei banho de poço, bebi água de cuia, fiz cocô num banheiro de palha e xixi no mato. Vi a miséria de perto e aprendi a valorizar o que realmente importa na vida.
De volta ao Rio, li a manchete de primeira página no jornal: “Chefe do tráfico se suicida na prisão”. A tristeza não me deixou derramar uma lágrima nem pronunciar uma palavra. Repeti meu primeiro ano na escola.
Dos dez aos onze eu e minha mãe passamos por um período de adaptação. Eu cuidava da casa e ela trabalhava fora. Ás vezes eu passava semanas na casa dos meus tios. Ás vezes ficava só em casa. Durante esse período fomos despejadas do apartamento por falta de pagamento do aluguel.
Aos doze fui molestada pela segunda vez por um dos clientes que minha mãe trazia para dormir em casa. Tive vergonha e medo de contar e várias vezes a mesma cena se repetiu. Fugi de casa pela primeira vez, mas voltei uma semana depois.
Minha mãe casou de novo. Meu padrasto era divertido e gostava de jogos de azar. Não lembro quanto tempo durou, mas sei que não foi muito, o suficiente para minha mãe anunciar sua gravidez.
Aos treze nasceu meu irmão, agora eu tinha uma casa e um bebê para cuidar. As dificuldades financeiras deixavam minha mãe estressada e sem paciência conosco. Minha mãe andava envolvida com falsificação de documentos, cheques roubados e estelionato.
Lembro dos amigos desta época. Fernanda, Monique, Nadja, Michele, Betinho, Cezinha e Henrique. Eu colecionava papéis de carta, jogava buraco e andava de patins. Aos fins de semana fazíamos festas americanas, a dança da vassoura me ajudava a dançar com o meu garoto preferido.
Aos quatorze eu fazia figuração em programas de TV e me formei como melhor aluna na escola de modelos de Botafogo. Minha mãe não foi me assistir desfilar. Nessa época fui morar próximo do Morro do Boogie Woogie e comecei a namorar.
Aos quinze dei o meu primeiro beijo de língua. Endless Love era a música dos apaixonados e o Renato era o meu príncipe encantado. Fomos despejadas dessa casa em menos de um ano e nos mudamos para a Rua Babaçu.
Minha mãe parecia ter se acertado na vida. Deixou de praticar infrações e montou uma barraquinha de camelô. Eu saía de segunda a segunda e namorava muito. Lembro do Marcelo vendedor, do Luiz da padaria e de mais um monte de rostos sem nome.
Aos dezesseis deixei de participar de um programa de TV por assédio sexual e quase fui estuprada durante uma festa de carnaval. Foi quando descobri o que a maioria dos homens queria de mim. Passei a tratá-los com a mesma reciprocidade. Fiz sexo por dinheiro pela primeira vez. Mil dólares por uma trepada.
CONTINUA…




on Junho 23rd, 2007 at 5:07 pm
Nossa, que vida difícil. É algo bom para mostrar para pessoas que reclamam demais da vida que tem.
Depois de ler este texto não consigo deixar de pensar na teoria da Tabula Rasa.
on Junho 23rd, 2007 at 7:47 pm
No comments!
Amiga, um beijo grande para ti!
on Junho 23rd, 2007 at 9:03 pm
Bela, estou muito comovido e para não entrar muito no assunto.. Só quero lhe dizer que lhe admiro cada vez mais e que nada nessa vida é por acaso… E que não é nenhuma porra de teoria do Caralho Transverso que vai conseguir explicar essa nossa natureza tão estranha e extensa como um Universo… Por incrível que pareça não torço para nenhuma porra de time de futebol, mas torço por algumas pessoas, e vc é uma das que quero acompanhar e ver vencer… Tudo que aconteceu com vc foi Phoda,,,, mas transformou vc naquilo que vc é e com toda certeza isso tudo faz parte do combustível interno que vc usa para lutar e jamais desistir… Perdoe qualquer coisa… Sou um dos seus fãs viciados… Um grande beijo no seu coração…. Tê adoro de paixão…
on Junho 24th, 2007 at 1:12 am
Quando li seu texto, Bela, inicialmente achei que estava com pena de você. Mas só achei. Você, e ninguém, merece um sentimento como este. Ter pena é subestimar demais alguém. Depois fui arrebatado pelo sentimento de revolta pela situação que você e muitas outras pessoas passam. Pura hipocresia minha. Não acredito que alguém realmente se importe. Enquanto eu acreditava que talvez pudésse sentir admiração por sua situação me peguei sentindo pena de mim mesmo por achar que posso fazer algo mas não faço e pior: sendo hipócrita. Mas sentir pena de mim mesmo? Que contradição! Por não saber o que sentir só me resta esperar suas próximas letras. E não sei porquê não consigo tirar da minha cabeça a célebre frase de Cazuza: “…um pierrô retrocesso meio bossa nova e rock and roll… faz parte do meu show…”
on Junho 24th, 2007 at 11:19 pm
Bela,
A ninguém é dado o direito de julgar.
Só Deus sabe o que está nos nossos corações.
Comovente a sua história. Determinante em sua vida. Mas você, creio, superou a seu modo o terror que lhe foi imposto e, agora, consegue ver as coisas com mais clareza.
Orarei por você.
Com sinceridade e humildade,
John
on Junho 25th, 2007 at 12:45 am
uU
….
Madame Bela, você só pode estar brincando…
on Junho 25th, 2007 at 2:16 pm
Oi Bela,
Admiro muito as pessoas que tendo uma estória triste como referencia, ainda encontram forças para lutar e vencer. Parabéns pela sua fibra! Continue assim e ignore os cães que ladram pois a caravana tem que continuar sua jornada…
Espero e torço para que você encontre um amor verdadeiro para desfrustrar o que você já acumulou de experiencia e riqueza até essa data.
Um beijão de um admirador,
Penislongo (tb fã do falecido blog do Zé de Abreu onde te conheci….)